terça-feira, 31 de março de 2009

Soldados judeus brasileiros temiam a morte na Segunda Guerra

(obs fierj: no total. nos exércitos aliados, lutaram na Segunda Guerra Mundial cerca 1,5 milhões de judeus entre as dezenas de milhões de militares em ação no conflito)

http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u539704.shtml

24/03/2009 - 15h17
RAPHAEL GOMIDE
da sucursal da Folha de S. Paulo no Rio

Entre os mais de 25 mil brasileiros que cruzaram o Oceano Atlântico para combater tropas nazistas na Itália, em 1944, na Segunda Guerra Mundial, 42 corriam um risco a mais que os companheiros de farda. Eram os soldados judeus. Além dos perigos inerentes à guerra, sujeitavam-se a ser sumariamente assassinados ou enviados a campos de concentração ou extermínio, destino de milhares de militares judeus capturados de outros países.

Soldados judeus brasileiros tinham dupla motivação na segunda Guerra Mundial

Alguns se tornaram personagens nacionais, como o tenente Salomão Malina (presidente do PCB), o sargento Jacob Schnaidermann (tradutor, escritor e professor), o cabo Carlos Scliar (artista plástico) e o soldado Jacob Gorender (historiador).

Pesquisa de Israel Blajberg, do Instituto de Geografia e História Militar do Brasil, deu origem ao livro "Soldados que Vieram de Longe --Os 42 Heróis Brasileiros Judeus da 2ª Guerra Mundial" e resgatou histórias desconhecidas desses brasileiros que lutaram contra o nazismo. A maioria era da primeira geração nascida no país, filha de imigrantes europeus.

A Folha conversou com cinco dos 13 ex-combatentes judeus vivos, octogenários e nonagenários com a experiência da guerra na ponta da língua. Três participam de associações de ex-combatentes.
Relatos

"Corríamos o risco de ser assassinados", disse o engenheiro Marcos Galper, 87, à época tenente de artilharia. Quando tinha chance, vingava-se.

"O que eu podia atirar em cima dos alemães, atirava. Descobriram torre de igreja com observação deles. Era um "posto de saúde", com o canhão no pátio, pintado de vermelho, sobre a cruz, para camuflagem. Pela Convenção de Genebra, não podia atirar em igreja. Regulava o tiro de canhão para fora da igreja onde alegava ter inimigo e corrigia para cima da igreja. Não tive remorsos, por dois motivos: você não vê os corpos, e o motivo é grande."

A maioria recusava contato com alemães capturados. "Vi muitos, mas evitava conversa. Tinha raiva e via aqueles pobres diabos, alguns talvez não tivessem culpa, mas era difícil distinguir nazistas de não-nazistas. Aquilo me afetava. Tive uma prima morta com o marido e o filho [por serem judeus]", diz Schnaiderman. Galper lembra deles de "cabeça baixa, com o moral acabado". "Falavam em Hitler e cuspiam no chão".

Blajberg cita no livro que o sargento Jacob Perlmann abordou alemães, em iídiche. "Se fossem vocês que tivessem me aprisionado, me matariam aqui ou em um campo de extermínio, porque sou brasileiro e judeu. Mas é exatamente por ser brasileiro e judeu que eu não vou fazer isso com vocês."

Brasileiro naturalizado, após vir da Rússia aos 8 anos, Boris Schnaiderman, 91, sentia-se "muito brasileiro e identificado aos homens da FEB". Sargento de Artilharia, atuou em Monte Castelo e Montese e descreveu o que viu no livro "Guerra em Surdina".

Não frequentava a comunidade judaica. "Éramos mais russos que judeus. Não éramos religiosos, sou ateu." Os massacres nazistas o tocavam e o motivaram a "tomar armas", apesar da aversão ao belicismo. "Fui achando que tinha de ir mesmo. O nazismo ameaçava o mundo, não só judeus."

Gorender tampouco é religioso. "Sou judeu, nunca escondi, me orgulho, mas não tenho religião", explicou.
Soldado de um conflito por sua origem, Gorender seria comandado na Itália por um inimigo em futura guerra política: o capitão Castello Branco, presidente da República (1964-67), em regime que combateu, pelo PCBR, e no qual foi torturado, em 1970, sob Médici.

"Não fomos criados na religião, mas segue a tradição e leva porrada. Sempre existiu preconceito", diz Galper.

O tenente Israel Rosenthal, 87, preferia festas no clube judaico Cabiras à sinagoga. Em 1944, trocou os bailes por Stafoli, onde foi por oito meses dentista de 5.500 militares. Sem luz elétrica ou água corrente, fez 180 cirurgias, "muita obturação", extrações, e tratamentos de canal. O motor era no pedal, a seringa manual, e tudo esterilizado em caixa metálica, com lamparina. Contrabandeou ajuda na forma de anestésico a um dentista local. Não lembra de ter visto alemães, mas não esquece o "frio de rachar" e os poucos banhos.

Um dos 11 filhos de capitão do Exército, o cearense Melquisedech Carvalho, 80, só se descobriu judeu após a guerra. Aos 16 anos, era grumete na Marinha quando foi proteger navios mercantes de submarinos inimigos. "Meu pai perdeu a família cedo e pouca coisa apanhou da religião. O que viu em casa, guardou e nos passou. Não se comia carne de porco ou peixe de couro, só de escama. Não sabia explicar por quê."
Encontrou no casamento com uma judia sua origem e percebeu que o sobrenome Carvalho era de cristão-novo. "Sou circuncidado." Hoje, frequenta a sinagoga e é dirigente da Associação dos Ex-Combatentes do Brasil.

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